O caso do tarado

Realmente, preciso admitir que minha passagem por repúblicas foi marcante. Principalmente quando dividi apartamento com a Karina. Loucamente maravilhoso!
No ano em que fomos morar juntas, um tarado rondava o meio universitário. Muitas meninas foram estupradas. Quase 7 anos de terror, até que há dois anos pegaram o cara, que era professor de dança na universidade em que estudei. Mas durante todos esses anos, o medo permaneceu de forma cruel e "psicológica".
Karina sempre foi doida, já fui morar com ela sabendo muito bem disso. Mas ela é daquelas doidas pacatas, nada que cause danos à ninguém. É de rir o tempo todo, de falar besteira, mas é doida. Encanada demais com tudo, principalmente com ladrões e estupradores. Imaginem então uma pessoa assim, num tempo em que um estuprador estava à solta, atacando no bairro em que morávamos, perto da faculdade.
Era sábado e mamãe nos fazia compania. Gostava de passar finais de semana conosco, jogando buraco, fazendo seu crochê sossegada.
Como éramos novas no local, não conhecíamos as vizinhas, que mais tarde (e por causa dessa história) se tornariam grandes amigas.
Fomos dormir cedo, já que ninguém tinha dinheiro pra boteco, e com mamãe em casa, nada de festinha...
Já passava de duas da manhã, quando Karina abre a porta do meu quarto, acordando a mim e mamãe, em pânico.
"Telma, levanta, rápido! Tem alguém na escada. A luz tá acesa e tenho certeza que apaguei mais cedo. Levanta! Cara, tem um carro parado bem aqui em frente, um carro escuro...tô com medo!!!"
"Calma, Karina, calma. Vai ver que é alguém do apartamento do lado que chegou...Dorme!!!!"
"Não, sô, né não. Tô escutando a respiração da pessoa, e ela tá subindo aos poucos a escada, Telma!"
"Pô, espera. Tô indo."
Fiz o imenso favor de levantar, pisando em ovos, e vendo que minha mãe já estava convencida de que algo estava errado. Comecei a tremer, e não pensei duas vezes:
"Karina, liga pra polícia. Mãe, fica aqui no quarto, quieta. Não acende nenhuma luz e não faça barulho."
"Tá, filha, mas fala baixo também, ué."
"Ssssshhhh, mãe!"
"Amiga, já chamei a polícia. Estão vindo.
Onde cê vai com essa faca??????"
"Sssssssshhhhhhhhh!!!!!! Uai, vou ficar aqui atrás da porta, caso o desgraçado decida arrombar. Você fica aí mesmo, porque se ele for pra cima de você, caio esfolando o tarado, tá?"
"Eu, aqui?????
Péra, xou ver embaixo da porta...
PUTZ!!!! O cara tá subindo!!!!"
"Sssshhhhhhhhh, Karina! Pára de falar alto! A polícia já vem. Cala a boca."
E assim, ficamos nessa quase uma hora. Até que dois carros da polícia chegam, cercando o carro, que depois de iluminado por uma estratosférica lanterna, percebemos que estava embaçado demais para não ter ninguém lá dentro...
Pela fresta da janela, percebo um policial apontando uma arma para o carro, pedindo que o sujeito saísse de dentro.
Para meu espanto - que já estava convencida de que era o tarado -, sai a vizinha com o namorado. Espantados, sem fôlego!
Voltei pra sala, com a faca ainda empunhada para o alto, sem ação nenhuma. Karina, deitada no chão da sala, olhando embaixo da porta...super atenta!
Uma voz grossa diz:
"Abram a porta, é a polícia!"
Karina abriu um sorriso de alívio, mas mal sabia o que a esperava...
"Boa noite, foi daqui que teve um chamado por conta de um tarado?
Senhora, por quê está com uma faca em mãos?"
Karina perde fôlego ao ver a vizinha, ainda sem entender bulhufas de nada...
"Ah, ah, ah, ah...achei que fosse um estranho, senhor policial. Eu, eu...realmente não imaginava que fosse ela aí"
Eu, tentando me explicar:
"Ah, essa faca aqui? É que me convenceram (olhando para Karina) de que havia um tarado na escada, como estamos só em mulheres aqui, achei melhor me preparar, né..."
O policial, tentando não rir da situação e manter o controle de tudo:
"Ok, mas tomem cuidado para não fazerem isso novamente, e cuidado realmente com o tarado"
Nós duas, parecendo que tudo havia sido ensaiado:
"Sim senhor!"
Minha mãe, coitada...sentiu tanto medo que passou o tempo todo, desde a chegada do policial, no banheiro fazendo número um...
Eu, coitada de mim...com uma faca de cozinha na mão e com a minha camisola preferida, com o Piu Piu fazendo cara de bravo e escrito "não me incomode no café da manhã"...Só conseguia lamentar, e sorrir amarelo para a vizinha...nada mais.
Dias depois, ao entrar em casa, Karina avisa: " Tranca logo tudo quanto é porta e janela, tenho certeza que um homem me seguiu!!!!"
Desse dia em diante, percebi que certas pessoas nascem, crescem e provavelmente morrerão paranóicas, não adianta.




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