21.9.06

Meu Primeiro Troféu

Eram tempos de faculdade. Terceiro ano de curso e meus neurônios fritavam de tanta coisa pra estudar. Levantava às 5 da madruga, ia pra estágio, voltava pra faculdade, assistia horas de palestras de fonoaudiólogas da Phillips falando sobre aparelhos auditivos, saía pra estudar na biblioteca, voltava pra sala de aula...Chegava em casa tarde da noite, cansada, querendo cama ou o colo do papai e da mamãe...

Talvez tenha influência genética nessa facilidade minha em explodir, já que meu pai é esquentadinho também. Mas acho que a base mesmo é da personalidade.

Era segunda feira e já passava de meia-noite. A janela do meu quarto dava pra rua - o que facilitava a perda de sono, já que não consigo dormir com barulho. Depois do banho, um miojo pra forrar o estômago, e enquanto passava os olhos nas tarefas do dia seguinte, relaxava, fumando meu Marlboro (na época eu ainda conseguia fumar marlboro!). Percebi que já estava dormindo sentada e fui me deitar. Fechei a porta do quarto, a janela com o cadeado, e enquanto tirava a roupa, pensava de que forma terminaria com meu namorado...coisinhas típicas do dia-a-dia. Quando estendi meu corpo na cama, senti que não havia nada melhor que aquele lugar, pelo menos naquela ocasião. Queria, durante todo o dia, estar onde estava naquele momento, descansando as pernas, olhando no escuro e sozinha. Adorava aquilo (e faço até hoje). Meu despertador era extremamente chato, aqueles comprados em lojas de 1,99 mesmo. Aqueles, sabe? Que fazem TAM-TAM-TAM!!!!! TAM-TAM-TAM!!!! Aqueles mesmo!

Quando os olhos já estavam vencidos pela mente cansada, eis que surge do telhado da casa da frente, um gato. Miaaaava, miaaaava... No começo, um miado fraquinho, bem de longe...Pensei nos exercícios de concentração que aprendi nas aulas, mas fui vencida antes mesmo de me lembrar do primeiro passo. Apareceu outro gato. Eram dois agora, miando cada vez mais forte. Gatos no cio me deixam nervosa, irritada extremamente, totalmente incapaz de agir de forma racional. Odeio gatos no cio. Eles provocam barulhos que nem Kama Sutra seria capaz de fazer aos humanos! É hor-rí-vel!!

Começou então um "luau miado". Cheio de ondulações, crises extremas de tentativas barítonas, provocando o acordar precoce de todos na rua. Abri a janela com toda a força possível e por um breve segundo, pararam de miar. Quando pensei em fechar a janela, voltaram. Aquilo era o fim da minha noite, que tanto esperei por todo o dia!

Os lindos gatos pretos miavam de prazer sem o menor constrangimento, agredindo aos ouvidos mais adormecidos. Olhava para o quarto, imaginando o que poderia fazê-los calar, porque aquilo havia se transformado em orgulho. Precisava conter aqueles gatinhos, ao menos naquela noite.

A única coisa que tinha em mãos e que poderia ser uma ajuda, eram as pilhas do despertador. Nada mais poderia jogar pela janela. Assim, Glica decide brincar de tiro ao alvo, com as duas pilhas do seu despertador, mais duas do discman e outras duas mais que pediria emprestado mais tarde a colega de quarto, Karina. Nenhuma, incrivelmente, acertou o casal no telhado, que sem nenhum rastro de desconcentração, paravam de fazer o que faziam e miar como miavam.

Por sorte, Karina chega ao quarto, assustada, perguntando se conseguira acertar ao menos um. Envergonhada, acenei com a cabeça negativamente.
Karina era uma pessoa calma até demais, talvez esse seja o motivo do meu espanto ao vê-la jogar a própria pantufa em direção aos 'invasores sonoros". É claro que aquilo foi feito num momento de puro descontrole, já que na lógica, uma pantufa é leve demais para atravessar uma rua larga e atingir o telhado de uma casa...por isso, apenas rimos.

Mas o bom de república é que sempre tem outra república por perto para ajudar em momentos como esse. O namorado da vizinha nos ofereceu umas pedrinhas de aquário. Eram tantas pedrinhas coloridas, que quase desisti de jogá-las pra guardar para mim. Mas o orgulho falou mais alto.
Foi um tiro atrás do outro, numa chuva colorida de pedrinhas brilhantes. Conseguimos, minutos depois, fazer com que os gatos procurassem outro local para praticar o amor.

O único problema era que o telhado da casa era da mãe da dona do nosso apê, que por sinal morava na casa ao lado. Tivemos que descer escadas, pedir desculpas alegando que gatos são barulhentos e miam demais. O azar maior foi que os 2 gatinhos eram da dona do apartamento, que realmente não se mostrou satisfeita, de camisola no meio da rua, rodeada de pedrinhas de aquário, e com uma expressão.........feia.

Por sorte pagávamos sempre o aluguel adiantado, assim não fomos despejadas.
A outra sorte foi que finalmente consegui dormir, faltando 3 horas para me levantar.
E no outro dia, retornando mais cedo pra casa, recebo um troféu de Karina e das vizinhas (uma caneca de chopp), o Troféu da Mais Estressada Universitária do ano de 2002.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home