Acredito que todo mundo já teve aquele momento em que foi preciso "encher lingüiça": para não dar o braço a torcer, por dor de cotovelo, por qualquer desculpa e até mesmo para "mentir de forma plausível". Mas é preciso reconhecer que até mesmo para encher lingüiça é necessário saber o que se fala.
Ainda perdura um dos mais atenciosos sofrimentos sobre os gerundistas de plantão: eles não conseguem largar o vício do "vô tá fazendo, você pode tá ligando, vamos tá organizando"; mas existem outras formas de martelar na cabeça dos mais sensíveis. Há tempos presto atenção que muitas pessoas usam a palavra personalidade e energia para descrever e caracterizar singularidades de outras pessoas. Alguns narradores de futebol fazem isso de forma contínua dizendo, por exemplo, que tal jogador precisa ter "personalidade para cobrar um pênalti". Há poucos dias vi num programa de televisão uma modelo que foi convidada para participar de um júri que analisava pessoas famosas dançando. Em toda crítica que fazia, usava a palavra energia para classificar o desempenho dos artistas: "você conseguiu passar muita energia enquanto dançava", "não senti aquela energia em você durante a apresentação". Seria mais simples criticar ou apenas comentar sobre determinada atitude apenas usando as palavras certas, na hora certa. Se determinado jogador de futebol não fez aquele gol que parecia ser tão simples, não é que o coitado simplesmente não teve personalidade, ele errou e talvez precisaria apenas prestar mais atenção no jogo, ou empenhar-se melhor enquanto jogava. Mas ter mais ou menos personalidade para fazer um gol é a mesma coisa que querer medir o tamanho do amor de uma mãe por seus filhos.
Tente imaginar seu chefe criticando você. Ele pede para que compareça à sala dele logo pela manhã. Elogia seu trabalho e diz estar satisfeito com seu desempenho, incentivando-o a fazer sempre o melhor que puder. Aí ele solta o verbo, como num discurso digno de campanha pra presidente: "você tem personalidade para agir, cobrar dos outros funcionários, é por isso que está aqui. O fulano de tal foi demitido justamente porque não tinha essa energia que você tem para que tudo saia perfeito. Parabéns!". Me corrijam se estiver errada; talvez nem saiba explicar direito essa "coisa" de nomear as palavras com outras palavras que não deveriam ser nomeadas. Mas ser competente não quer dizer que tenha personalidade forte, ou que sua energia é muito boa porque sabe fazer muito bem. Sei não, fico confusa com isso, mas tenho cisma.
Penso em engravidar um dia, mas temo pelo que o médico possa me dizer após o parto, se essas manias se alastrarem e não pudermos mais voltar atrás: "Telma, você teve muita personalidade para dar à luz, parabéns!".
Mas tem coisa pior do que narrador de futebol e modelo trocando de vocabulário na hora de soltar o verbo: imaginem assistir aula na universidade com professores que insistem em ser gerundistas, só faltam levantar a bandeira e gritar: "Hoje eu vou tá dando aula pra vocês, porque semana que vem tem prova e preciso tá passando o resto da matéria até sexta". Não adianta querer ensinar para os outros aquilo que não acreditamos e tampouco praticamos.
Não é que isso me faça sofrer, mas quando ouço expressões assim, meus ouvidos pegam fogo e imploram por um mundo melhor, me torno um ser - por tempo determinado, é claro - totalmente otimista, imaginando que um dia tudo será resolvido, inclusive o analfabetismo visual e auditivo.
Pronto, desabafei.
Fonte da imagem: http://www.pitoche.com